Humor e seu papel na literatura de fantasia

Falar do papel do humor na literatura de fantasia é um assunto complexo, pois a comédia não é exatamente a prioridade desse tipo de narrativa. E talvez nem deva ser, em certo sentido, pois há muita coisa para explorarmos ao criar (ou ler) um mundo fantástico.

Dito isso, eu defendo o papel do humor na literatura de fantasia por um motivo bem simples: uma boa dose de risadas pode ser o ingrediente que enriquece uma história. Digo mais, pode ser aquele “tempero” que a torna especial, diferente de outras fantasias.

Já tive a oportunidade de dizer que o humor foi uma decorrência em Inferno LTDA. Eu não planejei, mas o lado cômico da narrativa surgiu conforme os personagens nasciam e revelavam as suas facetas. Quando dei por mim, todo o universo, que lida com cenários fantásticos, sofrimentos e questões existenciais, ganhou um verniz de humor por toda parte.

Daenerys de Game of Thrones rindo de bom humor
Fonte/reprodução: HBO

Mas preciso dizer aqui que escrever humor não é fácil! O tom cômico surge naturalmente em muitos casos, porém cabe ao autor segurar a mão para não exagerar e não tornar as suas personagens em caricaturas. Em suma: humor de menos pode deixar a história sem vida, robótica no mau sentido; humor demais pode, da mesma forma, roubar a alma dos personagens e transformá-los em paródias de si mesmos.

Escrever humor na literatura de Inferno LTDA foi um desafio específico para mim, pois a comédia deve surgir de algum lugar, e não apenas ser encaixada com força no meio dos diálogos. Não dá para pegar uma história e injetar humor nela, apenas. É necessário entender por que o universo criado pede uma dose de piadas e ironias, aqui e ali.

Falo com mais detalhes a seguir sobre alguns conceitos que me ajudaram (e muito) a trazer humor na literatura de Inferno LTDA!

Humor na literatura de fantasia como “quebra gelo”.

Começo com um exemplo beeeem longe de nossos mundinhos da ficção.

Já prestou atenção nesses grandes palestrantes? O orador pode ser um especialista em assuntos bem sérios, como psicologia, desenvolvimento pessoal, ou até mesmo ramos do conhecimento tradicionais, como biologia ou física. Geralmente, ao iniciar sua aula ou discurso, o palestrante começa com uma anedota bem humorada. Já se perguntou por que ele faz isso?

É para “quebrar o gelo”! A ideia por trás da prática é trazer o público mais para perto, especialmente quando o assunto da palestra for muito denso. Através de uma boa história e uma pitada de risos, o palestrante dá um jeito de entrar nas mentes e nos corações dos ouvintes. Isso tem a ver com o comportamento humano. Estamos mais propensos a nos abrirmos e nos interessarmos por pessoas com quem percebemos mais familiaridade.

Em Inferno LTDA, já no primeiro capítulo, o demônio Eddie aparece. Imediatamente, a descrição da personagem é de alguém misterioso, imponente, poderoso, malévolo. Contudo, do momento em que Eddie começa a falar em diante, ele revela o seu lado sarcástico, por onde penetra o humor da narrativa.

É assim que ele “conquista” o leitor, ou, pelo menos, desperta o interesse. A intenção é quebrar expectativas, ou, de outra forma, quebrar o gelo. De fato, essa veia cômica surgiu naturalmente, conforme eu fazia os diálogos. Mas depois que sentei para ler e reler (muitas vezes) o que estava escrito, acreditei que esse tom humorístico foi a melhor decisão para esse personagem.

O “alívio cômico” que o humor na literatura de fantasia traz

Não é preciso conhecer profundamente os conceitos do mundo literário para entender o que a palavra “alívio” significa, uma vez que esse termo já se explica por si só. A ideia do “alívio cômico” é justamente essa: tirar o peso de uma narrativa, trazer um sopro de ar fresco para quem consome a obra. Isso vale para livros, filmes, séries e todo tipo de mídia.

Quando o teor da história se torna muito pesado, seja porque é trágico, dramático, ou complexo em suas temáticas, pode ser bom colocar uma pitadinha de humor no meio. A intenção é deixar a história equilibrada, e com mais camadas. Aqui eu cito uma grande referência para mim que é, sem nenhum perdão do trocadilho, o “rei” Stephen King.

Em seu livro It a Coisa, King narra uma história de terror, com direito a palhaço assassino e tudo mais. Pessoalmente, o que ficou comigo dessa narrativa em particular foi a história dos losers, que era o grupo de pré-adolescentes atormentados ao longo do livro por Pennywise, o dito palhaço.

Grupo dos losers de It a Coisa, onde três meninos e uma menina olham para cima assustados.
Fonte/reprodução: Warner

Não foi muito difícil trazer alívio cômico para um livro tão cheio de horrores, pois os personagens principais são bem novos, imaturos, íntimos um dos outros. De forma orgânica, surgem os elementos da familiaridade e da comédia. O interessante aqui é contrapor esse humor com o horror que permeia todos os acontecimentos. Fica sempre na mente do leitor: isso aqui é engraçado, mas, ao mesmo tempo, terrível e bem triste.

Por que literatura de humor na fantasia de Inferno LTDA?

Eu queria escrever a coisa mais absurda possível. Não sei exatamente porquê, mas acho que o mais próximo que tenho de um motivo é adicionar aquele “tempero” que mencionei lá no início. Por que escrever sobre um demônio torturando almas humanas se eu posso escrever sobre um demônio torturando almas humanas enquanto faz pedicure?

Foi meio assim que tudo começou. Eu escrevia uma cena, pensava num diálogo, e depois imaginava formas de enriquecer tudo sempre utilizando o elemento do absurdo. Aliás, o exemplo acima é real no livro. Demônio fazendo pedicure é apenas o começo! Digo, sem medo de dar spoiler. [link interno: por que você deve ler inferno LTDA]

Mas, até aqui, esse conceito ainda reflete apenas minha vontade como autora, certo? Por que a literatura de humor é importante para a fantasia de Inferno LTDA? A resposta está na construção do universo e dos personagens.

A primeira aparição do absurdo se dá logo nos primeiros parágrafos do livro, pois o primeiro contato com o universo de Inferno LTDA, que se passa 90% no mundo espiritual, é através de um humano recém-morto: Leo, o protagonista da história. Quando Leo se vê confrontado não apenas pela vida após a morte, mas também por criaturas estranhas e malévolas, e toda uma dimensão onde a lógica de funcionamento é outra, o absurdo se intensifica.

Leo funciona como os nossos olhos, enquanto leitores, para nos guiar através desse mundo de fantasia que se descortina imediatamente ao início da narrativa. Quando ele reage, comenta, ironiza, nós também fazemos isso. Eddie, por sua vez, é o contraponto. Ele é demônio, um ser milenar, inteligente, poderoso, cínico e acostumado com os absurdos que o inferno tem a oferecer. A relação deles é de contraste, e daí surge o humor na literatura de fantasia de Inferno LTDA.

O modus operandi dos demônios no livro é absurdo e cômico porque sua causa é de proporções extremas, eternas, e porque eles têm muita história, muita memória. Estão “cascudos” e nada mais os surpreende. São criaturas cínicas e debochadas. Logo, todas as estruturas do inferno mostradas no livro refletem esse modo de pensar e agir.

Equilibrando o humor na literatura de fantasia

Eu adoro brigadeiro, mas se comer demais passarei mal do estômago. Essa noção parece boba, mas é simplesmente uma verdade irrefutável no mundo real e da ficção. Por mais que eu adore escrever humor, por mais que seja uma delícia mergulhar no absurdo e criar novas piadas, se eu não frear meus impulsos, estrago o livro.

Simples e cruel assim.

Enquanto escrevia a primeira versão de Inferno LTDA, isto é,antes das muitas revisões, o tempo todo havia um alerta vermelho dentro da minha cabeça: não exagera!

Se eu ficar só no humor, a história não fará sentido. Então, como obter esse precioso equilíbrio na prática?

Como sou orientada na direção dos personagens, comecei por eles. Eu já sabia que vários seriam bem cômicos, mas se todos fossem assim, o livro seria recheado de palhaços, não de demônios. Por isso, criei alguns extremamente cômicos, outros “meio a meio”, e os verdadeiramente sérios. Lúcifer, por exemplo, é um desses mais sérios.

Ilustração de homem alto, pele branca, cabelos curtos escuros, olhos verdes, usando um terno.
Fonte/reprodução: imagem gerada por IA

Ele aparece em Inferno LTDA como o CEO da “empresa”, e por isso deve ser respeitado e temido. Pode até falar uma gracinha aqui ou ali, mas sempre dentro de sua personalidade, e sempre na hora certa e no lugar certo.

O timing do humor na literatura de fantasia

Por falar em hora e lugar certo… “Timing” é um conceito importantíssimo de humor. Por mais satírica que seja uma história, o que é o caso de Inferno LTDA, é preciso buscar muita sensibilidade para saber quando é o momento de pesar no drama, e quando é o momento de oferecer o bom e velho humor do absurdo.

Afinal de contas, o livro se passa quase todo no inferno. É uma história que lida com problemas psicológicos, sofrimentos, crises existenciais, filosofia, mitologia, teologia… Não dá para escrever uma piada após a outra e ficar satisfeita. Seria um desserviço tremendo para mim e para você.

Algo que me ajudou muito a entender o timing foi perguntar a mim mesma qual era minha intenção sempre que escrevia uma cena. Por exemplo, em um momento da história, Leo se depara com uma alma humana que deve julgar.

O julgamento é algo sério, mas o tribunal em si é repleto de elementos estranhos, fantásticos e absurdos. As palavras utilizadas, seja em diálogo ou pensamento, também possuem algum nível de sarcasmo. Mas a sensação final, isto é, o sentimento do personagem deve passar longe do humor, longe da leveza. Pelo contrário, é aquele “rir para não chorar” ou “rir de nervoso”, no máximo.

Sendo assim, timing tem muito a ver com retirar alguma coisa e oferecer outra ao mesmo tempo. Sempre ajustando as medidas do humor e do drama, da sátira e da reflexão. Ao menos, essa sempre foi a intenção dessa autora aqui.

Eu sempre acho meio clichê essa coisa de timing e feeling, mas na prática acabo seguindo esses conselhos sempre que escrevo. Já fiz umas histórias bem ruins que nunca verão a luz do dia, mas aprendi com elas. Hoje sei que foi por causa dessa falta de equilíbrio, de conhecimento de personagens, intenções e sensibilidade: elementos essenciais em uma história como Inferno LTDA.

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