Figura do demônio: análise literária

Eu acredito que a figura do demônio na literatura seja um dos elementos mais poderosos para criar uma boa história. Em uma fantasia, como Inferno LTDA, como o Senhor dos Anéis, como Nárnia, e tantas outras, mais ainda.

A figura do demônio na literatura é um tema fascinante, pois trata da ideia de mal, de caos, de rebelião. Há uma questão tanto metafísica quanto moral a ser explorada. E como há!

Olhar maldoso de um homem em preto e branco, representando a figura do demônio.
Fonte/Reprodução: original

Não é à toa que tantos autores, ao longo dos séculos, buscaram a figura do demônio na literatura a fim de enriquecer seus mundos criados e suas respectivas narrativas. Gênios como J.R.R Tolkien criaram personagens que simplesmente representam o diabo em seus universos. Sauron é uma clara representação do diabo, do mal puro, em O Senhor dos Anéis.

O próprio Stephen King fez isso em seu épico A Torre Negra. O tal “homem de preto que fugia pelo deserto”, também é uma espécie de diabo em seu universo criado. A genialidade foi apresentar o grande conflito, com seus grandes personagens, já na primeira frase do livro. Mas isso é papo para outro artigo…

Já que o assunto da figura do demônio na literatura é tão fascinante, vou dividi-lo em pequenos tópicos a seguir. Vem comigo!

A figura do demônio na literatura como oposição

Já tive a oportunidade de falar em outro post sobre como um protagonista, isto é, o herói ou heroína de uma história se torna um excelente personagem ao ser comparado com seu vilão. A ideia da “figura do demônio” na literatura expressa exatamente essa intenção, pois se trata de dar um adversário para o protagonista.

Sem a figura do demônio, sem o mal, não existe problema ou conflito de qualquer espécie. Logo, o autor corre o risco de criar uma narrativa desinteressante. Não adianta construir um incrível universo fantástico, cheio de magias, poderes e características únicas, se não houver o bom e velho confronto entre as forças do bem e do mal.

É a nossa natureza humana que pede por esse tipo de história. Nem sempre a figura do demônio na literatura será, necessariamente, demoníaca. Ela pode ser metafórica: um trauma, um vício, um antagonista humano com motivos fortes para se opor ao protagonista, dentre outros. Seja como for, a figura demoníaca é indispensável em todo e qualquer tipo de narrativa.

A figura do demônio na literatura como origem do mal

É interessante falar sobre dois temas aqui: a temática bíblica e a mente humana. Na primeira, vemos mais uma vez a figura do demônio como um contraposto à figura divina. Especialmente em nossa cultura ocidental, o diabo é visto como adversário, e como responsável pela origem do mal. Outras culturas entendem que o próprio Deus, enquanto criador, é responsável pelo surgimento da maldade, uma vez que é todo-poderoso.

Já que o universo de Inferno LTDA tem como base a mitologia cristã, bem como a teologia, a origem do mal passa pelo diabo, mas de uma forma um pouco mais complexa do que as citadas. O mal entra como uma decorrência do livre-arbítrio, do poder de escolha. Em outras palavras, é mais um “produto” do que uma “matéria-prima”. Em termos filosóficos, o mal é uma potência, que pode ou não acontecer, e está condicionado à vontade de seres conscientes.

No caso bíblico, foi a vontade consciente de um ser espiritual, um anjo, que deu origem ao mal como o conhecemos. É desse mal, como um produto de uma decisão, que surge toda a maldade no cosmos, seja no mundo material ou no espiritual.

Essa origem do mal explica porque há seres humanos que praticam a maldade, na vida real e na literatura como um espelho desta. Se somos livres para ser bons, também somos para não ser. Logo, a figura do demônio na literatura também tem a ver com a sugestão do mal, que tenta os seres humanos, o que nos leva ao próximo tópico.

A figura do demônio na literatura como sugestão

Sabe aquela imagem do “diabinho no ombro?” Uma voz da consciência reversa, um grilo falante com chifres e promessas terríveis? Esse tipo de personagem sempre fascinou os autores desde os tempos antigos.

Eu também sou fascinada, e com humildade peço permissão aos grandes mestres para poder criar a minha própria figura do demônio na literatura, pegando emprestado aqueles que já existem, como Lúcifer e Belzebu, e inserindo os meus “originais de fábrica”, representados por Eddie.

Mas o que está por trás da sugestão do mal? O que está por trás da figura do demônio na literatura, como aquele que induz os homens a pecarem? Penso que tem a ver com a responsabilidade humana e o nosso instinto de sermos criaturas morais.

Homem loiro, com olhar pensativo, e um anjo e um diabo em cada ombro, representando a figura do demônio.
Fonte/reprodução: original

Por exemplo, quando cometemos qualquer erro, qual é a nossa tendência? Justificar! Buscamos racionalizar decisões ruins, através de crenças ou ginásticas mentais. Mas nada muda o fato de que somos nós que optamos pelos caminhos que desejamos trilhar.

Ainda que o mal exista, ainda que haja uma origem demoníaca, no sentido bíblico da coisa, há que sermos honestos e admitirmos que é sempre o ser humano que permite a entrada do mal, através de seu poder de escolha. Isso nos leva direto ao próximo tópico…

A figura do demônio na literatura como confronto moral

Na literatura, a figura do demônio também possui uma serventia essencial, que é a de acusar o protagonista, de envergonhá-lo, de certa forma. Quando o vilão triunfa, isso nada mais é do que uma evidência da falha do herói, que por fraqueza ou qualquer motivo, não derrotou o mal.

Percebe? Enquanto o herói não toma sua decisão de enfrentar o mal de frente, o mal está fadado a vencer. Todas as possibilidades de sucesso no confronto repousam sobre uma decisão que muda toda a história.

A figura do demônio na literatura traz esse confronto moral, aquelas “temperatura e pressão” ideais para que o protagonista amadureça . Traz experiência real que gera aprendizado, o qual, por sua vez, deságua em catarse, isto é, em mudança de caráter. Sem o demônio, o herói não pode triunfar, não pode crescer, não pode ser herói.

Isso tudo soa fantástico, pois quando vemos as palavras “demônio”, “vilão”, “herói”, “guerra”, entre outras, é fácil desenhar na mente um gigantesco conflito de proporções épicas. Mas a versão real desse tipo de narrativa é a nossa, de todos os dias, de cada decisão boa que tomamos na vida, ou não.

Dessa forma, a figura do demônio na literatura nos transporta para dentro de nós mesmos, para nossa consciência, para nossa vida e propósito nesse mundo.

Exemplos de figura do demônio na literatura

Esse tema é tão grande e profundo que até hoje influencia todas as obras literárias. Não existe boa história sem o mal, sem o conflito. Por isso, autores visionários eternizaram suas obras em nossa cultura. Nomes como Tolkien, Milton e Dante são celebrados até hoje, e eu faço coro às celebrações. Destaco dois autores que me marcaram pessoalmente e que influenciaram minha escrita de Inferno LTDA.

O primeiro é Goethe, com sua obra-prima Fausto. Nesse calhamaço de livro, todo em formato de peça, o autor nos convida a explorar a história do herói trágico, Dr. Fausto, e do demônio Mefistófeles.

Gosto do personagem Mefistófeles porque ele é demônio, pronto e acabou! Hoje em dia, muitas obras se inclinam na direção de oferecer aos seus personagens demoníacos um certo código de conduta que se parece um pouco com a moralidade humana. Não tenho nada contra os vilões complexos em suas psiques e motivações, mas em se tratando de demônio em si… fico com os Mefistófeles da vida. Nada como o bom e velho clássico para dar norte a uma autora, certo?

Mefistófoles, uma figura do demônio com asas, pairando sobre um castelo.
Fonte/reprodução: original

Mefistófeles é uma das melhores representações da figura do demônio na literatura. Tudo o que citei anteriormente cabe nesse personagem: a oposição, a sugestão, o confronto moral, com o bônus de que Goethe realmente se utiliza da doutrina bíblica para criar sua narrativa, embora, teologicamente falando, opte por caminhos que são opostos à fé cristã.

Outra figura do demônio na literatura altamente inspiradora é de Fitafuso, em inglês Screwtape (prefiro Screwtape) criado pelo gigante C. S. Lewis. A ideia de que um demônio trabalha, de forma organizada e ativa, na destruição humana é antiga, mas Lewis usa meios muito originais para contar essa história. Sem contar o humor ácido do britânico ao longo do livro inteiro, que é contado em formato de cartas.

Como a figura do demônio na literatura influenciou a criação de Inferno LTDA

Ao ler Inferno LTDA, você verá claramente as minhas influências, em especial das obras de Fausto e Lewis. Todos os elementos da figura do demônio na literatura estão lá, com ênfase em Eddie, que é o maior antagonista para o herói, Leo.

Eddie é o diabo no ombro, que se diverte com o tormento do humano, que sugestiona coisas terríveis, que deseja corromper no máximo de suas capacidades. E ele tem muita capacidade, assim como Mefistófeles e Screwtape tiveram!

Com tanta inspiração vinda da Bíblia, das obras de ficção, e da própria experiência humana, criar um universo onde o mal impera e o bem deve lutar com suas armas para vencer, foi um verdadeiro presente, e desafio, para essa autora que vos fala.

Conheça todo o universo de inferno LTDA e como a figura do demônio é explorada nessa história!

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