5 razões para o sucesso de One Piece e o fracasso de Cowboy Bebop

O sucesso de One Piece é uma unanimidade. Isso é um fato que ninguém pode negar. Por outro lado, o fracasso de Cowboy Bebop, assim como da maioria das adaptações de anime em live action, também é um fato conhecido do público que consome entretenimento. Tal público se constitui de fãs da obra original e das pessoas que entram em contato com o material pela primeira vez.

Mas, a pergunta que muitos fazem é: como se explica o sucesso de One Piece em live action e o espetacular fracasso de Cowboy Bebop? O que uma série fez de tão certo que faltou na outra? Essa pergunta também pode ser revertida: o que uma série deixou de fazer, ou de acrescentar, que acarretou em uma vitória tão retumbante, ao passo que a outra se tornou o tipo de programação que o fã prefere esquecer?

O protagonista de One Piece, Luffy, ao lado do protagonista de Cowboy Bebop, Spike Spiegel.
Fonte/reprodução: Netflix

Quando falo do retumbante sucesso de One Piece, não faço qualquer exagero. Existem duas maneiras de medirmos os resultados de uma série, especialmente quando é uma adaptação.

A primeira forma é o sucesso de crítica, isto é, quando os próprios entendedores da indústria do entretenimento se rendem à qualidade de uma obra. A segunda forma diz respeito ao público, que pode não ser dotado da técnica do crítico, mas sabe muito bem diferenciar quando uma série é boa, ou não; divertida ou tediosa; digna de horas gastas em frente à tela, ou uma absoluta perda de tempo.

Os 5 motivos para o sucesso de One Piece

O sucesso de One Piece live action pegou a muitos de surpresa, mas eu não fui uma dessas pessoas. Obviamente, eu não seria capaz de prever o fenômeno que a série se tornou, mas o processo de desenvolvimento da adaptação, desde as suas primeiras fases, já dava indícios de que, pelo menos, os fãs da série não teriam muito do que reclamar.

Logo, o que parece um passe de mágica, ou poderes mágicos, à moda do nosso querido protagonista Monkey D. Luffy, pode se resumir a uma fórmula básica que se desdobra em cinco eixos:

  • Estética
  • Tom
  • Personagens
  • História
  • Respeito com o fã

Ao olharmos com atenção para esses cinco aspectos da produção de uma adaptação em live action, as diferenças que apontam o sucesso de One Piece e o fracasso de Cowboy Bebop se tornarão cristalinas.

Estética

Afinal de contas, o que é a estética de uma produção audiovisual? Não se incomode, nem se preocupe, com esses termos. Podemos fazer uma tradução simples do conceito inteiro com uma palavra: aparência. No caso do sucesso de One Piece e o fracasso de Cowboy Bebop, as aparências nunca enganam, mas se tornam uma evidência do quanto uma adaptação é fiel e possui qualidade.

Tanto para o fã que passou anos amando uma franquia, quanto para uma pessoa que está casualmente “zapeando” pelo Netflix, a estética é um dos principais fatores determinantes para que a série seja bem vista, no sentido literal e em todos os outros. O sucesso de One Piece já começa no instante em que o espectador reconhece o que está vendo.

Quando falamos de One Piece, e pensamos nas imagens correspondentes, já vem às nossas mentes as expressões exageradas nos rostos das personagens, a infinidade de cores, a qualidade de cartoon dos golpes e lutas, as linhas desproporcionais, etc.

Os criadores da série em live action se viram diante de uma tarefa ingrata. Como trazer esse mundo para a realidade de “carne e osso”? Talvez, nas mãos de outros estúdios e produtores, a resposta seria muito simples: não trazemos. Esquece o visual maluco e segue a história!

Mas isso seria um erro terrível. Diferente de um livro, que conta mais com a imaginação do leitor para trazer cenários e cores à vida, uma produção audiovisual, como filmes e séries, tem obrigação de trazer, com imagens, o universo proposto. One Piece live action abraçou a estética “absurda” da obra original, criada pelo aclamado Eiichiro Oda. O resultado? Os fãs amaram a fidelidade, e os novos descobridores desse universo simplesmente embarcaram na aventura, no maior estilo pirata!

A estética, isto é, a aparência de uma série, traz ao público uma necessária identidade do universo retratado. De agora em diante, cada vez mais pessoas vão associar esse tipo de visual com o mundo de One Piece. E com isso, é necessário falar do segundo motivo para o sucesso de One Piece live action e o fracasso de Cowboy Bebop: o tom da série.

O fracasso de Cowboy Bebop foi esse: os criadores até fizeram algo com a estética, mas não a abraçaram totalmente. E olha que a de Cowboy Bebop é bem mais fácil de reproduzir do que One Piece! Isso deixou, nos fãs e nos novos conhecedores da série, aquela sensação de que algo estava “fora do lugar”, “incompleto”, “reduzido”.

Tom

Novamente, esse termo pode soar novo para muitos, mas também revela uma verdade bem simples, que definiu o sucesso de One Piece, assim como de outras obras que seguiram por esse caminho. O tom de qualquer “peça de mídia”, seja ela um livro, quadrinho, filme, série, etc, é a construção feita para causar uma determinada sensação no leitor ou espectador.

Qual é o tom que dita o sucesso de One Piece desde a época de sua criação, em 1997, até hoje? Em uma palavra: aventura!

Bem, essa é a palavra que vem à minha mente, se eu tivesse que escolher somente uma para resumir o que é One Piece. É um mundo colorido não apenas no sentido literal, mas em seus temas, metáforas, contextos e personalidades. De uma forma paradoxal, Oda criou um universo que funciona em dois extremos: o humor e a fantasia com os aspectos mais sombrios e temas mais complexos.

Já deu para perceber que sou fã da obra original e que estou muito feliz com o sucesso de One Piece, certo? Por outro lado, eu fiquei profundamente decepcionada com o fracasso de Cowboy Bebop, pois foi no tom que a série levou o primeiro escorregão, e daí por diante veio uma sucessão de tombos até que nem mesmo o sempre “cool” Spike Spiegel conseguiu se levantar do chão.

Se One Piece é um universo bem lúdico e colorido, Cowboy Bebop é um mundo de ficção científica misturado com faroeste. Só a junção desses gêneros já promete uma história boa. O anime original traz as maluquices do Sci-Fi e a levada estilosa dos cowboys, especificamente dos caçadores de recompensa. Nada é brega, exagerado ou fora do lugar. A obra inteira exala modernidade e um tom bastante adulto.

Das histórias dos protagonistas e vilões até as temáticas e os cenários, o tom de Cowboy Bebop é muito mais alinhado com nossos gostos ocidentais do que One Piece. Mas a série jamais respeitou isso.

Um exemplo claro está relacionado ao humor. Francamente, o fracasso de Cowboy Bebop é tão grande nesse aspecto que dá para escrever um artigo inteiro sobre. O fato é que o humor está presente no anime, mas de uma forma sutil e inteligente. Sutileza e inteligência? Passaram longe da adaptação em live action da dona Netflix.

Ao invés de um roteiro esperto, com falas sutis e sarcasmo bem encaixado, na hora e lugar certos, Cowboy Bebop tomou emprestado a fórmula batida da Marvel. Os filmes e séries do MCU, cada vez mais, substituem o desenvolvimento dos personagens, da história e do tema, por piadas fáceis e sem sentido. Faço a ressalva aqui: adoro humor! Minhas próprias obras contém humor. Mas essa é magia desse gênero: é preciso dominar o timing e o feeling. De outra forma o humor se torna um pesadelo.

Chega ser irônico que o sucesso de One Piece live action tenha se construído sem excesso de humor, isto é, sem piadinhas prontas e fora de hora. A série nunca sacrifica seus personagens pela “punch line” barata, e isso demonstra a força do roteiro.

Personagens

Outro motivo, ligado intimamente ao tom, é o respeito com os personagens originais. Na minha opinião, aqui está a maior razão para o sucesso de One Piece.

No mais novo live action da Netflix, tanto o fã antigo, quanto o novo espectador, podem dormir tranquilos. Mais de 90% dos personagens da série funcionam, desde os protagonistas até alguns que pouco aparecem.

O sucesso de One Piece live action se explica, principalmente, porque o elenco principal, isto é, a chamada Tripulação do Chapéu de Palha, é extremamente reconhecível. Luffy, Zoro, Nami, Usopp e Sanji: todos eles possuem charme, visual e personalidades correspondentes à obra original.

Cada um com seus padrões de pensamento e comportamento, o que gerou uma dinâmica maravilhosa entre Luffy e seus amigos. Pensa em relacionamentos bem encaixados! Mas essa química do elenco já vinha desde os tempos em que cada ator e atriz foi apresentado ao público e na campanha de marketing memorável.

Também é preciso fazer uma menção digna de personagens secundários, como Garp, Shanks e Mihawk, que saíram das páginas do mangá para a “vida real”. Perfeitos em suas falas, tons de voz, expressão, reações… E o mesmo pode se dizer dos vilões. Buggy, em particular, roubou a cena, e o coração dos fãs!

Se, por um lado, o sucesso de One Piece repousa nas personagens, o fracasso de Cowboy Bebop pode ser explicado por esse mesmo caminho! Posso dizer com certeza – e com tristeza – que NENHUM personagem da série lembrou o original. Os problemas estavam no visual, no tom, nas histórias, nas motivações… em tudo. A culpa, nesse caso, não é dos atores, mas dos roteiristas e diretores.

Homem vestido de palhaço, com pele branca, nariz vermelho, olhos penetrantes, chapéu laranja e azul.
Fonte/reprodução: Netflix

Spike Spiegel, interpretado pelo excelente John Choo, parecia irreconhecível na metade das vezes em que aparecia. Faye foi uma das personagens que mais me ofendeu. Ela não lembrava nada a original. Porém, sem qualquer dúvida, o pior de todos foi o vilão: Vicius;

Vicius tinha tudo para ser uma figura memorável! No anime, ele representava uma antítese de Spike, o protagonista. Ele era forte, violento, misterioso, bem mal mesmo. “Botava moral”.

Por algum motivo estúpido, na série ele se tornou um homem chato, manhoso, nada poderoso e mimado. Não dava para levar a sério nada do que ele dizia! Quando Vicius apareceu, o fracasso de Cowboy Bebop foi cimentado. Para mim, foi onde a série acabou. E isso foi uma tristeza enorme. Como consumidora e criadora de obras de ficção, o vilão é sempre a parte mais empolgante. Por isso deve ser uma prioridade.

História

Juntamente aos personagens, também vale citar a história como um dos cinco motivos para o sucesso de One Piece e o fracasso de Cowboy Bebop, bem como de tantos outros animes.

One Piece live action simplesmente seguiu a história que já existia. De fato, algumas modificações foram feitas. Mas essa é a natureza das adaptações: mudanças necessárias. Foi preciso alterar o tempo de certos acontecimentos, bem como locais e falas. Em suma, os espertos produtores adiantaram muitas coisas que acontecem lá no episódio 300 do anime para a primeira temporada da série em live action. Afinal de contas, é preciso “vender o peixe”.

Numa série, essa venda acontece de forma acelerada. Mas isso não dá guarida para que os criadores da adaptação modifiquem pontos importantes da história de tal maneira que ela se torna irreconhecível. Infelizmente, isso aconteceu e determinou o fracasso de Cowboy Bebop. Eles fizeram isso na hora mais importante, que foi o conflito final entre Spike e Vicious.

Isso ocorreu ao longo da série, mas nada é mais emblemático no anime do que a cena final. A planta da casa já estava toda ali! Era só copiar tudo! O caminho para o sucesso traçado, mas a série seguiu o caminho? Não! Mudaram tudo! E não para a melhor. Muitos afirmam que foi essa última cena que determinou o cancelamento da série.

O que custa manter a história que já faz sucesso? Se “em time que está ganhando não adaptamos”, Cowboy Bebop foi catapultada para a quinta divisão.

Respeito com o fã

Todos os motivos citados até aqui culminam neste último. O sucesso de One Piece e o fracasso de Cowboy se deram porque uma obra demonstrou paixão, e a outra não. O criador de Cowboy Bebop, Shinichiro Watanabe, não se envolveu na produção da série. Já Oda, o criador de One Piece, supervisionou cada etapa de produção da série em live action. Só isso já demonstra o quanto o “dedo” do criador original importa.

Mas esse tópico não existe para criticar o genial Watanabe. Afinal de conta, quem faz a série live action é o grupo de roteiristas, produtores, diretores, etc. O sucesso de One Piece repousa no fato de que essas pessoas sempre souberam que seu trabalho era, em primeiro lugar, para agradar aos fãs, e em segundo, para conquistar novos.

Luffy, de camisa vermelha, bermuda azul e chapéu de palha, comemorando.
Fonte/reprodução: Netflix

Se Cowboy Bebop desceu como um insulto goela abaixo dos fãs, One Piece veio como um respiro de ar fresco. Vendo as entrevista da equipe de produção e elenco dá para entender os motivos: eles são fãs do mangá e do anime. Em outras palavras, nerds como eu e você.

E são esses os motivos que demonstram o sucesso de One Piece e o fracasso de Cowboy Bebop. Não dá para apontar uma razão de forma isolada. É necessário pensar no todo. O conjunto da obra enalteceu o universo de Oda, e agora a base de fãs aumentou. Só espero que o espírito do original se mantenha na próxima temporada.

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